Uma borboleta na ponte de Babel

por Teresa Albuquerque

 

 

“For last year’s words belong to last year’s language”, T.S. Eliot, Little Gidding, 1939
“La prueba mas acabada que somos unos animales de la peor especie es siempre olvidarnos de ello”, Alvaro García de Zúñiga, Manuel, 2014
“Many have the feeling that the world has been turned upside down”, Angela Merkel at the CDU’s annual party conference in December 2016
“ya no hay soluciones parciales a ninguno de los problemas de nuestro tiempo” – Zygmunt Bauman, 2017

 

Afirmar que o futuro é incerto não nos deve impedir de desenhar cenários – inclusivamente cenários precisos – para onde queremos ir. O facto de se constatar um fenómeno não significa um juízo de valor sobre esse fenómeno. Admitir a complexidade não significa ter medo dela. A questão de como chegar não deve anteceder a discussão sobre onde ir, pois esse é o melhor caminho para confundir os meios com os fins ou de cair na tentação de soluções “simples”.  Assumir a complexidade é, a meu ver, o grande desafio de hoje e a abordagem cultural é o melhor instrumento para abarcar essa “complexidade”, para nos defender de soluções “simples”. Não há soluções simples, há que procurar perceber as relações diretas e indiretas entre aquilo que acontece, há que estar disponível para entender correlações entre realidades cuja interligação pode não ser visível, ou mensurável, ou inequivocamente comprovável com os meios de que se dispõe. Existem massas de informação mas é preciso saber como trata-la e para quê. Isto só é possível a partir de uma visão ética do mundo entendido como a soma de tudo o que existe, existiu ou existirá. Não uma visão estática, mas uma visão dinâmica e inclusiva. É isto que significa para mim a ideia de uma borboleta na ponte de Babel. Estamos sempre no limiar da história (ou pelo menos no sempre que nos diz respeito), estamos sempre em transição de um estado para outro, da vida para a morte e vice-versa, e nem sequer há diferença entre os estados. Mas também não somos entidades estanques desligadas umas das outras e do que nos rodeia. Esta porosidade implica a aceitação de uma condição que é resultado de um conjunto de forças que ou tendem para o caos ou para alguma direção e que a função essencial, na medida do possível, à escala daquilo que podemos compreender, é tentar que o movimento do cardume no qual nos inserimos seja harmonioso. Talvez seja essa in fine a função do artista, a função dessa atividade “sem função”. Ou se quisermos, a montante disso, ou ao mesmo tempo do que isso, a função da linguagem. E por isso ela está sempre a ser reinventada e passamos tanto tempo a redefinir conceitos para aprender a viver em conjunto.

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Desde que o nosso antepassado, Homo Erectus, há mais 400.000 anos, aprendeu a controlar o fogo, que andamos, literalmente, a brincar com ele. E o fogo é uma bela imagem, tanto pelo seu poder de destruição como pelo papel decisivo que teve na evolução do Homem. Todas as contas feitas, e fissão nuclear pelo caminho, a História do Homem é a História da invenção de armas de (auto)destruição maciça. Hoje é com a inteligência artificial que estamos a aprender a viver. E, tal como no passado a espécie não se deixou destruir pelos seus brinquedos, podemos supor que nesta nova etapa saberemos encontrar soluções para reinventar mais uma vez o mundo. O nosso, claro.

A Torre de Babel, símbolo da hubris de chegar ao céu, e do final de uma humanidade unida por um idioma comum, representa também o início da especialização técnica e a dispersão que conduziu à multiplicação das formas culturais, das formas de expressão.

A ponte que queria estabelecer entre estas duas ideias, é um exercício entre dois polos que Zygmunt Bauman sintetiza nos seus últimos textos e que vão da constatação de que não existem respostas parciais aos problemas do nosso tempo, ao desafio de desenhar – pela primeira vez na história humana – uma integração sem separação alguma a que recorrer, algo que corresponderia a essa humanidade unida por um idioma comum a que o episódio da Torre de Babel alude.  

A questão que se coloca então, para além do exercício de descrever e discutir este fim de ciclo, esta “viragem civilizacional”, ou como quisermos chamar à percepção comum de incerteza perante o futuro, seria a de pensar como, e com que instrumentos, procurar dar resposta a questões tão prementes como as condições de convivência de tantos humanos no planeta, e evitar as nuvens ameaçadoras que pairam sobre a habitabilidade da Terra. E, neste quadro, saber em que moldes, as novas tecnologias que se vão instalando, produzindo alterações profundas da natureza do trabalho, da relação do Homem com a natureza e do Homem com o Homem num ambiente profundamente embebido de comunicação virtual, expressão e o motor de um novo momento charneira da História, se podem tornar um instrumento decisivo para a possibilidade de emergência de um sistema de valores comuns, compatível com a diversidade das expressões culturais, e com a articulação de respostas aos desafios que se colocam hoje à humanidade.

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Fala-se muito na celeridade, na velocidade estonteante em que hoje tudo acontece, mas o facto é que estamos mergulhados num período de transição que começou há décadas e que tarda em conduzir-nos a um qualquer destino. É difícil aceitar que o atual estado de coisas, confuso, inconsequente, perigoso, caracterizado, em grande medida, pela incapacidade institucional e política de oferecer respostas satisfatórias seja um estado “normal”. “Normal” é por definição algo de previsível e é difícil aceitar a normalidade da imprevisibilidade e da incerteza. O “novo normal” é um estado de perplexidade colectiva que tanto pode estimular a criatividade e abertura à mudança, como a destruição, na luta fratricida entre um multi ou meta culturalismo emergente e as tentações de regresso a “mono-culturas” pseudo-identitárias.

Independentemente disso, muitas coisas correm bem, a ciência oferece-nos horizontes de esperança quase inimagináveis, a arte está, como nunca se calhar, presente nas nossas vidas – a tal ponto em que podemos sonhar com a possibilidade de sermos todos artistas  –, a “riqueza” –  embora este termo careça de alguma precisão – objetivamente cresce à escala global, e em cada vez mais países, sistemas sociais de segurança social, saúde, educação, pese embora a nossa impaciência, existem, e um crescente número de pessoas beneficia deles.

Simultaneamente, nunca como antes fomos tão conscientes dos riscos globais. De que os riscos são, precisamente, globais, como as consequências do bater de asas de uma borboleta.

Nunca como antes tantos estiveram inter-conectados entre si numa rede de trocas de informação que cobre “n” vezes a totalidade da esfera terrestre. Esta hiper-conectividade produz uma espécie de ubiquidade virtual que tende a esbater o sentimento de distância ou de estranheza entre as diferentes comunidades. Contribui para a percepção de que existem interdependências entre tudo o que acontece – o tal efeito da borboleta. A economia e as finanças refletem esta realidade, as modas e as “tendências” também.  Forma-se uma espécie de consciência em que se intui a probabilidade complexa de que pode estar tudo ligado, e que, inclusivamente, existe uma espécie de interdependência ou co-relação entre todos os estados do planeta, uma consciência ecológica. Algo que seguramente poderemos modelizar e visualizar um dia graças à capacidade de processamento dos super computadores ou da computação quântica. Discute-se até que a consciência seja um estado da própria matéria, no sentido em que corresponde a um conjunto de condições matemáticas, portanto, não exclusivamente humana, ou sequer animal, o que é um elemento chave da problemática que coloca a inteligência artificial.  Daqui para a ideia de que os “estados de alma” sociais podem ser uma manifestação de natureza quântica, com entrelaçamentos e simultaneidades sem causa aparente, como sugere a teoria da Ressonância mórfica, é quase equivalente a uma “experiência de pensamento”. Para além disso há hoje também a percepção de que nem os nossos corpos são estanques, nem às nanopartículas, nem ao ambiente, e de que existem, inclusive, interações entre “nós próprios”, “os nossos genes”, e o “mundo exterior”, que, bem vistas as coisas, habita também confortavelmente dentro de cada um. Para além disso, inversamente, é amplamente conhecido o impacto radical da atividade humana em todo o planeta.

Esbatendo-se a distinção entre o que é o próprio do indivíduo, e o que é o meio-ambiente, há forçosamente um reposicionamento do modo de estar no mundo. Este novo posicionamento é, de tal modo profundo e radical, que faz parte de um novo período geológico – o “Antropoceno” -. Um tempo que se caracteriza pelo facto de não existir virtualmente um átomo de natureza que não seja também “homem”, ou seja, que não esteja de algum modo poluído ou condicionado pelo homem.

Para além daquilo que a conectividade “naturalmente” produz, penso que devemos assumir o objetivo de trabalhar para a construção desta “camada” cultural global, para que possa haver um terreno comum de discussão sobre respostas aos problemas que identificamos como globais. Os problemas que tornam as fronteiras imaginárias.

Esta camada cultural não precisa de ser perfeitamente homogénea, precisa apenas de ser suficiente para que se estabeleçam diálogos em que as considerações de ordem local não impeçam a escuta de considerações de ordem global e vice-versa.

Neste período do “Antropoceno” – ou a da idade geológica do homem – a natureza torna-se “humana” na medida em que se encontra  dependente do homem, que conseguiu, num período geologicamente brevíssimo, alterar os equilíbrios naturais propícios à diversidade da vida na Terra, tal como a conhecemos. Já não é a Natureza que estabelece as condições de vida. Ou já não o faz sozinha. Nada de estranho para uma espécie que evoluiu em interação profunda com o meio ambiente, moldando-o às suas necessidades até que se tornou um “igual” das “forças naturais”. Veja-se por exemplo o esforço da geo-engenharia para alterar o livre curso do próprio clima. Esta evolução contem riscos cada vez mais prementes que só poderão ser mitigados se surgir um sentimento de responsabilidade de larga escala que conduza à erradicação de comportamentos tóxicos graças a um novo sistema de valores que possa ser definido como “deslocalizado”, ou seja “global”, e a acrescer às culturas globais.

Só que esta camada cultural, que não tem ainda um nome, mas da qual surgem múltiplas expressões que a designam (como por exemplo “Earth Democracy” ou “Tipe One Civilization“…), já não se funda na matriz cultural europeia. Fundar-se-á, eventualmente, numa cultura do mundo, da sua imprescindível diversidade, será, desejavelmente, uma cultura do equilíbrio, da sensibilidade e da empatia, uma cultura de pontes e não de fronteiras. Uma cultura a exigir um tipo de racionalidade compatível com um sistema de interações complexo como um sistema meteorológico. A um nível meramente cultural, podemos exemplificar com o facto de que hoje, é já um exercício comum a necessidade de conjugar cultura ou identidade local, com múltiplos níveis: regional, nacional, supranacional, para não falar familiar, comunitária ou de bairro. Digamos que é um exercício de multi ou meta culturalismo. Ou, em alternativa, um estéril exercício de abstração, que conduz a ignorar todos, e tentar fechar-se num casulo mais ou menos virtual.

Simultaneamente, uma cultura global supõe códigos comuns globais, que permitam o desenho de instituições adaptadas, que em vez de tentarem impor, ou veicular, visões simplificadas do mundo, integrem a sua complexidade, e que permitam, a prazo, estabelecer consensos sobre mecanismos de regulação, que salvaguardem a perenidade da vida (na sua diversidade e também da) humana no planeta. A complexidade do desafio permite antecipar que será uma cultura dependente do instrumento mais poderoso de que dispomos atualmente: a inteligência artificial, que poderia ser usado de forma a reforçar o sentimento de partilha de um recurso comum, a nova Terra do Antropoceno.

Aquilo que procuro designar por “camada cultural global” é a capacidade de estabelecer pontes, precisamente para superar o mito de Babel, nos seus dois aspectos fundamentais. Babel, aqui, simboliza o aparecimento de línguas diferentes e da especialização pelo trabalho que está na base da evolução tecnológica até hoje. Trabalho que por sua vez é epítome dessa especialização. Trabalho e especialização permitiram a invenção de máquinas, alavancas poderosas do esforço humano em todos os seus aspectos. Hoje é tal a capacidade das máquinas que conseguem ultrapassar em capacidade e eficiência aquilo que se considerava o último reduto da humanidade: a “inteligência”. Ficou assim esgotada a capacidade de especialização humana para a imensa generalidade das funções que justificam o trabalho, tanto braçal como intelectual. Máquinas podem substituir com vantagem a participação humana num número crescente de trabalhos. Para além disso existem hoje aplicações que, através de um simples telemóvel, por exemplo, podem, potencialmente, traduzir, em tempo real, qualquer idioma em qualquer idioma. Imaginem então um mundo sem trabalho (ou antes, no qual o trabalho muda radicalmente de natureza, podendo até passar a ser uma espécie de ocupação, como se poderia imaginar para um cidadão livre na Grécia Antiga, ou simplesmente o trabalho de “enquadrar” a inteligência artificial dentro de objetivos que garantam a liberdade e a qualidade da vida na terra) e em que todos podem entender todos. Como será esse mundo pós-Babel que parece poder agora fechar um círculo bíblico libertando-nos até de todas as suas maldições originais?

Queria aqui fazer um parêntese sobre a situação hoje no que outrora se chamou o crescente fértil – hoje Síria e Iraque -, a Mesopotamia, berço da matriz cultural que deu precisamente origem à Torre de Babel, e lugar no qual o mesmo orgulho dos descendentes dessa mesma cultura que se espalhou pelo mundo ocidental, levou aos atuais cenários de destruição maciça. A destruição de toda esta zona onde nasceu a escrita, escrita que por sua vez está na origem da nossa civilização e das nossas instituições, não deixa de nos interpelar quanto ao seu sentido alegórico. O dealbar de uma nova era (“pós-Babel”?) nos escombros da civilização que ora soçobra encerra as tristes contradições da espécie a que pertencemos e das quais, como escrevia Alvaro García de Zúñiga, sempre nos esquecemos. A civilização que nasceu com a escrita há uns seis mil anos está transformar-se noutra coisa. Tal como a escrita enformou um mundo que agora se autonomiza dessa tecnologia, a informática e a inteligência artificial já iniciaram a sua caminhada irreversível que, como também observava Alvaro García de Zúñiga, nos conduz para uma nova oralidade com consequências na própria percepção no sentido em que, como refere AGZ, o espaço entendido acusticamente tem uma natureza essencialmente diferente de outros media “La clé de l’espace acoustique, c’est la multiplicité de sens simultanés. Pour le comprendre on ne peut pas disséquer ; il faut additionner, sommer, car il y a plein de différentes parties éparpillées en même temps. Pour comprendre l’espace acoustique, il faut le voir en entier et pas s’attacher à une seule partie. Autrement dit, l’espace acoustique exige une appréhension simultanée de la forme et du fond, une coopération de tous les sens.” De certo modo voltamos à ideia de Bauman mas do lado da percepção, do exercício mental e sensorial que pode supor a procura de soluções “não parciais” para os problemas: a capacidade de escuta “holística” captando em simultâneo o pormenor, o todo e a relação entre as partes. Um exercício de complexidade dinâmica, fundado na escuta e no diálogo, como método para uma nova forma de estar e fazer ao mesmo tempo. Não como antes em que o tempo da reflexão precedia o da ação. Parêntesis dentro do parêntesis : escrita, a imprensa, a informática, passaram por etapas em que suscitaram muitos anti-corpos até serem totalmente absorvidas pelo próprio tecido social. O mesmo está a suceder com a inteligência artificial e as experiências de introduzir esta tecnologia no próprio corpo humano.  Ainda outra observação em relação à escrita: é o facto de estar intimamente associada à propriedade, ao registo, ao inventário, às listas sequenciais de objetos, tarefas ou hierarquias. O ambiente digital é rizomático, o sentido de hierarquia altera-se profundamente, e a relação com a propriedade também se transforma até porque o sentido de escassez se altera radicalmente, bem como a noção daquilo que tem hoje mais valor, e que é tendencialmente aquilo que é partilhável por oposição àquilo que é exclusivo. Se somos o que partilhamos no limite só existe o que se partilha.

Fechando os parêntesis, e enquanto se caminha, eventualmente, para um mundo “pós Babel”, a tarefa que importa é perceber como acolher ou inventar essa nova linguagem para este mundo, integrando as linguagens existentes – pois todas elas são tão necessárias como a biodiversidade no planeta – de forma a que não se crie um hiato de incompreensão entre umas e outras; Mais, a questão é saber agora como conter e colmatar as reações de sentido contrário, a contra corrente das transformações culturais e tecnológicas que se instalam por todo o planeta, e que se traduzem  na tentação de reerguer muros e fronteiras, numa altura em que a ciência, a tecnologia, a arte e a cultura, tornam uns e outras obsoletos. Como dizia Gramsci, que a razão tornava pessimista e a vontade optimista, há momentos propícios ao aparecimento de monstros.

E há muitos indícios de que há monstros à espreita, ou já bem instalados, e de que as instituições conhecidas, herdadas do séc.XX, os sistemas políticos e de regulação, não têm conseguido acompanhar a extraordinária mudança cultural e tecnológica que se tem desenrolado perante os nossos olhos, deixando a muitos a sensação de estarem excluídos dessa mudança.

Pode-se se considerar que a evolução cultural e tecnológica é um continuum marcado por alguns momentos de ruptura ou de aceleração. O “nosso momento” vem dando sinais há décadas, e chegámos a um ponto que nos dá a sensação de estarmos a ser empurrados para uma espécie de beco do qual as saídas possíveis exigem algumas acrobacias. Em particular desde a crise que se tornou evidente nestes últimos dez anos, é patente a incapacidade persistente tanto a nível nacional como internacional de combater a rede de [conivências entre as finanças globais, os pobres governos insoberanos face aos poderosos tentáculos das corporações supra-nacionais, e o conjunto dos chamados] interesses instalados em nome da defesa de um interesse comum, que também não se define com clareza. (uma observação relativamente à oposição entre os interesses instalados, sempre plurais e o interesse comum, que se supõe singular, quando os interesses instalados, privados, por vezes secretos ou até inconfessáveis, se resumem a um único: garantir o acesso privilegiado a um máximo de recursos por parte de poucos; e por sua vez “o” interesse “comum”, público e transparente, tem, na realidade, um lado irredutível e deveria talvez ser pensado de forma plural para poder ser entendido, assumido e apropriado por todos.)

Compreender a complexidade do interesse comum e a virtude das geometrias variáveis é a tarefa que as instituições de hoje têm de assumir. Questões que hoje podem beneficiar do processamento de massas de informação, pressupondo que se acertam e aceitam algumas premissas de base. A crise do século XXI é também uma crise da governança que nos convoca a inventar novas formas de abordagem que incluam a capacidade de responder aos riscos globais, sem perder o sentido local, e se corporizem em novas instituições ou instituições renovadas que sejam guias para a construção de um futuro comum.

As instituições são formas que se inventam baseadas em consensos sobre aquilo que é o bem comum. Mas são também guias que nos iluminam quanto a esse bem comum. São guardiãs da cultura e da civilização. Permitem-nos agir de forma concertada, eficiente, regulada sobre a realidade. Mas o ponto é que a própria realidade está em causa. A linguagem parece ter perdido a sua âncora no real. Falamos em “pós-verdade”. Há uma enorme confusão ideológica e os direitos humanos, a grande conquista ocidental do século XX, As instituições são formas que se inventam baseadas em consensos sobre aquilo que é o bem comum. Mas são também guias que nos iluminam quanto a esse bem comum. São guardiãs da cultura e da civilização. Permitem-nos agir de forma concertada, eficiente, regulada sobre a realidade. Mas o ponto é que a própria realidade está em causa. A linguagem parece ter perdido a sua âncora no real. Falamos em “pós-verdade”. Há uma enorme confusão ideológica e os direitos humanos, a grande conquista ocidental do século XX, esboroam um pouco por toda a parte por motivos fúteis. Há o sentimento de que “o mundo está de pernas para o ar” como comentava Angela Merkel, no final do ano passado. Uns anos antes, T. S. Eliot acrescenta, descrevendo um sentimento semelhante, quando diz que “as palavras do ano passado, pertencem ao idioma do ano passado”, isto, em 1939, no dealbar da segunda grande guerra, expressava a impotência de quem viveu entre deux guerres, e este período durante a primeira metade do século XX, foi de tal modo arrasador que naturalmente teve de surgir uma nova linguagem, uma nova definição do homem e da forma de estar no planeta que está, de novo, em causa.

A dimensão dos desafios de hoje é extrema, pois o que está em jogo é também o próprio ecossistema que nos acolhe tal como o conhecemos. Este acréscimo de incerteza, causa reações muitas delas contraditórias entre si. Todos pressentem que nestas profundas transformações muitos têm muito a perder. As grandes transições fizeram-se – provavelmente sempre – por cima de muitos cadáveres. Este temor ancestral gera uma certa irracionalidade que se sente no ar, entre a fuga para a frente e a recusa dos factos, da ciência ou da “realidade”.

Seria necessária uma mobilização profunda e inclusiva capaz de demonstrar que é possível um desenvolvimento humano, social e económico, que não gere exclusão, como por exemplo o Rendimento Básico Incondicional, de que hoje tanto se fala. Isto à escala global, desejavelmente. Mas nós, europeus, para que esse adjetivo signifique alguma coisa, deveríamos poder começar pela Europa onde existe capacidade cultural e tecnológica para obrar e replicar um modelo de sociedade capaz de sustentar algo de parecido com um novo Renascimento. E deveríamos ter inteligência suficiente para não ter de chegar a situações limite para o fazer. Só que o desaparecimento do poder de autoridade das instituições não ajuda.

Se o Renascimento foi marcado pela invenção da máquina de imprimir, a de hoje é sem dúvida a digital. Já se falou num novo plano Marshall para a Europa. Poderia ser uma forma de cumprir a revolução digital sem que fosse preciso um nível terminal de destruição prévio. O digital atinge todas as áreas de atividade humana, mas é agora que está prestes a dar um salto gigantesco com impactos decisivos na própria noção de humanidade. Se esta ferramenta, através da desmaterialização das comunicações, conduziu à interconectividade de hoje, e à transformação radical do trabalho e da produção de riqueza, se é a tecnologia responsável pelo desemprego de hoje e pela redistribuição deficitária da riqueza, é também o único instrumento capaz de ajudar a debelar a complexidade que significa trazer sustentabilidade à convivência de tantos humanos num mesmo planeta, desde a gestão inteligente de redes de produção e distribuição de energia ou de água potável, para falar de bens absolutamente essenciais, à reinvenção da Democracia e da Cidadania, através de novos modos de participação possíveis graças às Tecnologias de Informação e de Comunicação, ao sentimento de pertença global, em última análise, salvaguarda da vida humana na Terra. Não quero com isto sugerir que existe uma espécie de panaceia universal para resolver todos os problemas da humanidade. Apenas insistir na ideia de que existe uma ferramenta poderosa sobre o uso da qual é  urgente reflectir tanto mais que existem sérios alertas que nos lembram que não há ferramenta que não possa destruir tanto como construir.

Muitas das instituições herdadas do séc. XX, foram desenhadas para um mundo que simplesmente já não existe. Com base em pressupostos e inclusivamente numa linguagem que já não faz sentido. Deixaram-se ultrapassar pelos acontecimentos, deixaram de servir objetivos e valores comuns e partilhados. Urge reajustar, reinventar a política e os recursos da política, aceitar a diversidade estabelecendo pontes, abrindo portas em cada muro que se erguer e janelas de entendimento através da arte e da ciência. Nunca as ameaças foram tantas, mas nunca estivemos tão armados para lhes responder. A nossa história, no entanto, é de destruição antes da construção. Como se fosse mais fácil construir sobre as ruínas. O desafio é contrariar, conter a tentação do quanto pior melhor da destruição “regeneradora”, ou as ilusões de regresso a realidades “simples” ou desligadas da lógica da interdependência que caracteriza a actualidade. As tensões são evidentes, as desigualdades crescentes, as situação limite extremam-se exigindo novas soluções, e sobretudo soluções ”não parciais”, complexas e integradoras. Acolher a diversidade e a complexidade, regular a economia, estabelecer círculos virtuosos (como na economia circular, mas também para gerar recursos fiscais) e transparentes, criar novos mecanismos de redistribuição, encontrar um equilíbrio equitativo, exige um nível de mobilização para o qual precisamos também de novos instrumentos.  No entanto não se vislumbra uma ação concertada que integre a governança, o serviço público e a gestão de massas de informação. Avança-se nos serviços em suporte digital, o chamado “e-governement”, mas a “e-governance” avança a pequenos passos, não por falta de tecnologia, mas por falta de capacidade de decisão e articulação entre todas as instancias implicadas.

O fogo e a escrita foram seguramente as duas tecnologias que maior impacto tiveram na humanidade, transformando-a por dentro e por fora. A inteligência artificial tem o potencial de ter um impacto semelhante à soma das duas. Tem o poder transformador do fogo e o de se inscrever em nós, como a escrita, moldando a própria perceção e forma de pensar.

A Arte e a Ciência são as nossas formas de apreender a realidade e de nos defendermos de nós próprios. As TICs estão progressivamente presentes em todo tipo de interação e comunicação, no entanto escapam largamente a qualquer controlo, ou até compreensão. Urge domesticar o instrumento de comunicação digital. Fenómenos recentes como o jogo da baleia azul, podem ter algum paralelo com a desventura do nosso Cavaleiro da Triste Figura, que, enlouquecido à força de ler romances de má qualidade, deixou de conseguir distinguir a realidade da ficção. A sua história representa a perplexidade face à disseminação da ficção impressa e, ao mesmo tempo, o auge da escrita literária do chamado século de ouro, num arco que começou há 6000 anos e se fecha com a obra monumental “Manuel” (2014) de Alvaro García de Zúñiga que por sua vez contem “como uma semente contém a árvore inteira” as perplexidades de uma nova etapa na história da humanidade.

Paralelamente as bolhas nas redes sociais, a baleia azul e outras formas de manipulação através da internet, representam talvez a nossa perplexidade face à ficção digital. Imaginemos um passo adiante em que não haja nada que não tenha uma réplica virtual, virtualmente indistinguível, incluindo a própria voz humana.  A arte digital ou “do digital” é incipiente, ainda não se encontrou a forma artística que corresponde àquilo que hoje designamos por “internet”. Precisamos dessa forma para poder aprender a viver com as representações que ela permite. Sem uma forma, com esta tecnologia, somos como macacos com uma faca.

A ponte é símbolo de qualquer comunicação que se estabelece, seja entre sinapses ou via satélite. Em tempos de Big Data e de “pessoas electrónicas”, aos humanos caberá, talvez, continuar a estabelecer as pontes necessárias à compreensão e à invenção do sentido que resulta necessariamente de um sentimento de humanidade partilhada. Algo que parece inevitável que venha a passar por aqui.

 

(a partir de um texto para o Fórum Demos,

revisto para apresentação na UTAD dia 31 de Março de 2017)