O TEATRO É PURO CINEMA | Leitura Encenada | 2021

Uma co-produção Teatro da Rainha & blablaLab em digressão em 2021

“O teatro abre os parênteses: os actores-reactores imaginam todo um filme. Criam uma janela que é a de um avião, porque o teatro voa. Com ele o tempo voa e faz-nos voar. Alto. Ao mesmo tempo, dentro de um avião, os passageiros assistem a um filme catástrofe e inventam logo a seguir outro. E o avião cai sobre o teatro em plena representação. Morre toda a gente. Na autópsia abre-se um crânio como quem abre uma caixa de Pandora e fecha-se o parêntese.” Alvaro García de Zúñiga, Abril 1999

O Teatro é Puro Cinema”, foi a primeira encomenda feita a Alvaro García de Zúñiga em Portugal, em 1996, pouco tempo depois da sua chegada a Lisboa. Pensada inicialmente para ser estreada no ACARTE (Fundação Calouste Gulbenkian) acabou por ser produzida pelo Teatro Nacional de D. Maria II e estrear na sua sala estúdio, em 1999. No ACARTE estreou a peça “Théâtre Impossible Teatro Impossível”, em 1998.

Vinte anos depois, a Companhia de Teatro da Rainha, tem-nos dado a grata oportunidade de regressar a estes textos. Em 2018, apresentámos uma nova versão de “Teatro Impossível”, numa colaboração a três que incluiu o Miso Estúdio. Este ano é a vez de “O Teatro é Puro Cinema” e o circuito de cumplicidades alarga-se: para além do Teatro da Rainha, da blablaLab, a peça circulará pelo Teatro Municipal de Vila Real e pela Espaço Miguel Torga, em Sabrosa.

Esta peça, que foi, na realidade a primeira a ser escrita, estabelece as regras do jogo do teatro alvariano. Um teatro musical, polifónico, sem personagens e transdisciplinar. Uma peça coral para intérpretes, vozes off, e imagens em movimento. “Literatura para ver” como diz a certa altura um dos intérpretes. Escrita inicialmente em francês e depois em castelhano, esta peça, como toda a obra de Alvaro García de Zúñiga, apresenta sempre dificuldades de tradução pelo principal motivo de ser o som a conduzir a escrita e também por, como dizia o Alvaro, ele escrever diretamente em estrangeiro. Aliás, o Alvaro gostava de ser estrangeiro dentro das línguas em que escrevia; gostava dessa estranheza-surpresa que se pode encontrar na língua, vista de uma certa distância. A tradução que agora se apresenta é de Jorge Melícias, a partir do castelhano.

Contudo, entre jogos e malabarismos linguísticos, entre a verve brilhante e a gargalhada sempre pronta, a escrita do Alvaro é, sempre, séria, honesta, rigorosa no agenciamento conceptual e na precisão do que significa. Se é “literatura para ver” pode-se dizer também que é filosofia para brincar e música para dizer. Para os atores o trabalho pode não ser fácil. A ausência de personagens deixa-os de certo modo a nu, já que, tal como há que “inventar histórias”, há que inventar o seu “ser-em-cena” e a única referência viável é interior. Há, no entanto, uma tábua de salvação sempre disponível: o som, a música do texto que confere uma qualidade orgânica, concreta e vital que se conjuga com as dimensões lógicas e conceptuais do texto. Uma das frases de abertura “Laissons au théâtre le soin du son des leçons” ou “Deixemos ao teatro lecionar, soar, sumir-se, somar-se, ensimesmar-se e simular-se no seu som”, convida a ouvir, em primeiro lugar, antes de nos arriscarmos a querer tirar conclusões. Afinal o teatro Alvariano é tão sensível quanto intelectual. Nesta peça, talvez por ter sido cronologicamente a primeira, o tema central é o próprio teatro, e, nesta medida, a peça está repleta de prescrições, que o autor, por pudor, não esclarece se são para levar a sério. A vida e a morte, e o teatro como cápsula da vida, são aqui abordadas com a mesma elegância de alguém que, como escreveu Rimbaud, por delicadeza tivesse perdido a vida[1]. É como se a aura dessa delicadeza fosse o resultado espectral do teatro a acontecer.

Nesta nova versão, ensaiamos novamente uma forma leve, entre a leitura e a encenação, com o formato Manuel sur scène por referência[2].

Por sorte contamos com um elenco formidável: Fernando Mora Ramos, incansável fazedor de teatro, enciclopédia viva de todos os modos teatrais. Graças ao seu entusiasmo e generosidade é já a segunda peça do Alvaro que montamos em conjunto; José Luís Ferreira que calcorreou os palcos em todas as qualidades, produtor, programador, velho cúmplice de tantas andanças; Fábio Costa, jovem premier estrela ascendente do nosso teatro, o ser-em-ação sempre presente. 

Nesta versão-reposição de 2021 os equilíbrios originais alteram-se e reinventam-se. Em vez da grande tela de cinema da estreia, será através da televisão, que assume função de protagonista, graças ao engenho de Eduardo Raon, desta vez na pele de videasta-programador, que se constrói o diálogo entre teatro e cinema. Um cadeirão para ver televisão, construído pelo artista plástico Enrico Gaido, apoia-se num conjunto de obras de referência indicado pelo autor, Alvaro García de Zúñiga, que reunimos com a ajuda de Henrique Manuel Bento Fialho. Aqui sentados podemos assistir a virtualmente tudo. Tal como podemos ler sobre tudo; como espécie acumulamos sistemas de produção e invenção de memória. As camadas sobrepõem-se, sejam referências literárias ou cinematográficas, às vozes dos atores acrescentam-se vozes em off, e, graças aos livros e a imagens de arquivo, as cenas do teatro de ontem ecoam no teatro de hoje. Há também novas peças vídeos realizadas por Elsa Loff com António Feijó, infra-actor por excelência, inultrapassável e sublime, e Fernando Hermano Vendrell Saraiva que nos conta primorosa e detalhadamente a matéria com que são feitas as verdadeiras histórias do cinema, do teatro e da vida-verdadeira. Como não podia deixar de ser, ao passar do grande para o pequeno ecrã o cinema perde solenidade, fragmenta-se, torna-se errático, fluxo televisivo permanentemente interrompido, saco roto onde cabe tudo, buraco negro impossível de resistir, mas também se torna TV-companheira hipnotizante, capaz de embalar e até de unir – tal como o primeiro pé a pisar a Lua – o universo “il-imitado” de referências que tornam a nossa casa uma janela para o mundo.

Carregado de tudo isto o avião do teatro descola. Assim o esperamos. O voo tem sempre o mesmo início e o mesmo fim. Salvam-nos as histórias que contamos uns aos outros, a única coisa afinal que sobrevive à viagem. 

Espero que se divirtam! 

Teresa Albuquerque, dezembro 2020


[1] Chanson de la plus haute tour, Rimbaud

[2] Manuel sur Scène é um formato de performance polifónica e multilíngue, em que os atores leem a partitura-texto.